Restos diurnos

Categoria: Termos da interpretação dos sonhos

O paradoxo de que os acontecimentos mais banais aparecem mais nos sonhos

Uma característica interessante dos restos diurnos é que tendem a aparecer nos sonhos não os acontecimentos mais marcantes do dia, mas sim experiências banais, sem importância. Freud também apontou que o sonho prefere usar materiais que, à primeira vista, não têm importância nenhuma. Então, por que os acontecimentos banais são escolhidos? A explicação clássica é que o material emocionalmente neutro passa com mais facilidade pela censura do sonho. Os desejos inconscientes, ao se transferirem para restos diurnos pouco chamativos, escapam do olhar da censura e aparecem no sonho. Por isso, o acontecimento banal que surgiu no sonho é lido não como algo importante em si, mas como uma porta de entrada para o desejo escondido por trás dele. Justamente os elementos que, ao rever o registro, fazem você se perguntar “por que isso apareceu?” são os que vale a pena seguir.

Como rastrear os restos diurnos com o diário de sonhos

Rastrear os restos diurnos é um primeiro passo eficaz na interpretação dos sonhos. Depois de registrar o sonho, pegue um a um os elementos que apareceram nele (pessoas, lugares, objetos, situações) e identifique “de qual experiência de ontem isso vem”. Às vezes se encontra a correspondência com acontecimentos do dia anterior. Mas o importante é não parar por aí ao encontrar a correspondência. Aprofundando a pergunta mais um nível, com “por que esse acontecimento banal foi escolhido para o sonho?”, você chega aos desejos e conflitos aos quais esses restos diurnos estão ligados. Pense nos restos diurnos como a superfície, sob a qual se esconde o conteúdo latente. Por outro lado, se sobrar algum elemento cuja origem você não consegue descobrir de jeito nenhum, isso não é um fracasso. Os elementos que não lembram nada às vezes se conectam quando relidos alguns dias depois.

A “regra de 1 a 2 dias” e o período de latência dos sonhos

Freud afirmou que o material dos sonhos vem principalmente das experiências do dia anterior até dois dias antes. Por outro lado, há também pesquisas que tratam de períodos de latência mais longos. No fenômeno chamado “efeito de atraso onírico” (dream-lag effect), relata-se que os acontecimentos do dia são incorporados aos sonhos sobretudo em dois momentos: por volta do dia seguinte e de 5 a 7 dias depois. Esse atraso é discutido em relação à consolidação da memória, mas considera-se que a transferência das memórias do hipocampo para o córtex cerebral em si leva de semanas a anos, e o intervalo de 5 a 7 dias não indica o ponto em que essa transferência se completa. Só o fato de o momento em que os acontecimentos aparecem nos sonhos não ser único já é bastante útil na hora de fazer os registros. Ou seja, mesmo que um sonho não lembre nada do dia anterior, vale a pena ampliar o olhar e rever até cerca de uma semana antes.

Controlar o sonho plantando restos diurnos intencionalmente

Usando a seu favor o mecanismo dos restos diurnos, é possível influenciar até certo ponto o conteúdo dos sonhos. Ver imagens de um tema específico, ler textos ou pensar sobre esse tema antes de dormir faz com que ele seja incorporado aos sonhos com mais facilidade. Essa é uma das técnicas da “incubação de sonhos”. No entanto, o material plantado intencionalmente nem sempre aparece no sonho tal como é. Ele pode ser transformado pelo trabalho do sonho e surgir de uma forma inesperada. Outro cuidado prático: continuar vendo imagens muito estimulantes até a hora de dormir torna o próprio sono mais leve e dificulta lembrar os sonhos. Funciona melhor terminar esse preparo um pouco antes de deitar e reservar um momento tranquilo no fim.

Para quem quase não lembra dos sonhos: Como lembrar melhor dos sonhos

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