Participação mística

Categoria: Termos da psicologia

A origem do conceito e a sua introdução na psicologia analítica

A “participação mística” (participation mystique) é um conceito proposto pelo antropólogo francês Lucien Lévy-Bruhl em sua obra de 1910, “As funções mentais nas sociedades inferiores”. Ele observou que as pessoas das sociedades “primitivas” tinham um modo de pensar que não traçava fronteiras claras entre si e os objetos da natureza, nem entre si e o grupo, e deu a esse estado de identificação psicológica o nome de “participação mística”.

Jung tomou esse conceito emprestado e o reinterpretou como uma fase universal do desenvolvimento psicológico do indivíduo. Para Jung, a participação mística não se limita aos “primitivos”: é um mecanismo psicológico que continua agindo também no inconsciente das pessoas de hoje. Jung acreditava que, no fundo de fenômenos como a projeção, a identificação e a transferência, existe essa consciência primordial em que sujeito e objeto não se diferenciam.

Como a participação mística aparece na vida cotidiana

A participação mística também é muito comum na vida cotidiana das pessoas de hoje. O fenômeno de idealizar o outro no começo de um romance e projetar nele a própria imagem interior (anima/animus) é um caso típico de participação mística. Nesse estado, não se distingue a imagem real do outro da própria projeção, e surge a ilusão de que “essa pessoa me entende por completo”.

A participação mística também age com força na psicologia de grupo. A sensação de unidade de achar que “nós ganhamos” ao torcer por um time, a devoção acrítica a um líder carismático e o contágio coletivo da raiva nas redes sociais são expressões atuais da participação mística, em que as fronteiras do ego individual se dissolvem no grupo. Jung analisou a ascensão do nazismo do ponto de vista da psicologia de grupo e da possessão arquetípica e alertou para o perigo de o julgamento individual se dissolver no grupo.

A participação mística nos sonhos

No sonho, a participação mística aparece de forma mais marcante do que na vigília. A experiência de ser outra pessoa no sonho, a sensação de que o lugar e a emoção se fundem e a sensação de se unir a um animal ou a um objeto mostram que a consciência do sonho está em um nível mais primordial do que a da vigília. Essa característica é um dos motivos pelos quais o sonho funciona como meio de acesso às profundezas do inconsciente.

Na análise dos sonhos, a interpretação no nível subjetivo, que interpreta as pessoas do sonho como “parte de si mesmo”, se baseia no conceito de participação mística. O que aparece no sonho como outra pessoa é, na verdade, um aspecto projetado de você mesmo e reflete um estado do inconsciente em que a fronteira entre sujeito e objeto se dissolveu. Esse entendimento explica por que o diálogo com as pessoas do sonho (a imaginação ativa) aprofunda o autoconhecimento.

A superação da participação mística na individuação

No processo de individuação de Jung, tornar consciente e superar a participação mística é uma tarefa importante. A retirada das projeções (o trabalho de reconhecer os aspectos de si que estavam projetados nos outros e assumi-los como seus) significa um afastamento gradual da participação mística. Mas o afastamento completo é impossível, e tampouco é desejável.

Jung acreditava que eliminar por completo a participação mística traz isolamento e aridez psicológicos. O importante é a passagem da participação mística inconsciente (o estado de não perceber as projeções) para uma relação consciente (uma ligação empática, com as projeções reconhecidas). A experiência de se fundir com outra pessoa no sonho reflete o estado de uma mente que está no meio dessa passagem e serve de indicador do avanço da integração.

Para quem quase não lembra dos sonhos: Como lembrar melhor dos sonhos

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