Compensação
Categoria: Termos da psicologia
Um mecanismo automático que restabelece o equilíbrio da psique
A compensação é a função que a psicologia junguiana considera básica nos sonhos. Quando a consciência pende demais para um lado, o inconsciente apresenta no sonho conteúdos na direção oposta e tenta restabelecer o equilíbrio da psique como um todo. Por exemplo, uma pessoa excessivamente confiante durante o dia pode sonhar com cenas de fracasso ou de vergonha e, ao contrário, uma pessoa com a autoestima extremamente baixa pode ter no sonho a experiência de receber elogios. Essa visão parte de premissas diferentes da teoria de Freud de que “o sonho é a realização de desejos” e entende o sonho como uma função que mantém a homeostase da psique. Mas, embora busque o equilíbrio, o sonho não ensina a resposta certa. O papel do sonho vai até indicar a direção do desequilíbrio; como agir a partir daí fica a cargo do julgamento feito na vigília.
A diferença decisiva em relação à teoria da realização de desejos de Freud
Freud via o sonho como a realização disfarçada de desejos reprimidos. A teoria da compensação de Jung é uma visão diferente. O sonho compensatório não é necessariamente agradável. Pelo contrário, entende-se que, quanto mais desagradável o sonho, mais fortemente ele mostra os aspectos que a consciência está deixando passar. O sonho de fracasso que aparece quando o sucesso sobe à cabeça; o sonho de solidão que aparece quando os relacionamentos vão bem. Nenhum dos dois é a realização de um desejo: ambos podem ser lidos como riscos ou emoções para os quais a consciência não está olhando e que o inconsciente vem oferecer. Por isso, se você descartar o sonho desagradável como “sonho de mau presságio”, estará jogando fora uma pista valiosa. Ao trocá-lo pela pergunta “o que está faltando em mim agora?”, o mesmo sonho se transforma em material útil.
O quanto a consciência está desequilibrada muda a forma como o sonho aparece
Jung explicou que a forma como o sonho aparece muda conforme o grau de desequilíbrio da atitude consciente. Se a consciência pende fortemente para um lado, o sonho mostra uma posição quase oposta. É nessa forma que uma pessoa autoconfiante demais sonha que passa por uma humilhação. Se a atitude consciente está, em linhas gerais, em um ponto razoável, o sonho não aparece como oposição frontal, e sim como uma variação ou uma pequena correção dessa atitude. Um sonho em que surge um pequeno obstáculo diante de um plano um pouco otimista demais corresponde a isso. E, se a direção da consciência está de acordo com a situação, o sonho tem um conteúdo que parece confirmá-la. Essas três formas não têm nomes fixos, por isso não há sentido em decorar nomes. É mais útil na prática avaliar primeiro o quanto a sua atitude atual está desequilibrada e confrontar essa avaliação com o conteúdo do sonho. Se o sonho apresentar o oposto exato, isso pode ser lido como sinal de que o desequilíbrio é grande.
Prática para ler os padrões de compensação com o diário de sonhos
Para aproveitar a função de compensação, o essencial é registrar não só o conteúdo do sonho, mas também “o seu estado psicológico naquele dia”. Crie no diário de sonhos um campo para “o humor e os acontecimentos de ontem” e compare-o com o sonho. Por exemplo, se na manhã seguinte a um dia em que “ontem falei com firmeza na reunião” você tiver “um sonho em que perde a voz”, é possível que o inconsciente esteja compensando o excesso de confiança. Ao rever uma semana de registros, fica mais fácil ver para que lado a sua consciência tende a pender e de que maneira o inconsciente tenta restabelecer o equilíbrio. O cuidado necessário é não decidir qual é o seu desequilíbrio com base no sonho de uma única noite. É justamente quando sonhos na mesma direção se repetem várias vezes que vale a pena lê-los como compensação.
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